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17/12/2008 10:45





«Chamados por Deus à comunhão com seu Filho Jesus Cristo»

Para permanecer fiéis ao método da lectio divina, tão recomendada pelo recente Sínodo dos bispos, escutemos as palavras de São Paulo sobre as quais refletiremos nesta meditação:

«Mas tudo isso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo e estar com ele. Não com minha justiça, que vem da lei, mas com a justiça que se obtém pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé. Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da sua Ressurreição, pela participação em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na morte, com a esperança de conseguir a ressurreição dentre os mortos. Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo.

1. «Anseio pelo conhecimento de Cristo»

Na semana passada, meditamos sobre a conversão de Paulo como uma metanoia, uma mudança de mente, no modo de conceber a salvação. Paulo, contudo, não se converteu a uma doutrina, ainda que fosse uma doutrina de justificação mediante a fé; Ele se converteu a uma pessoa! Antes que uma mudança de pensamento, a sua foi uma mudança de coração, o encontro com uma pessoa viva. Usa-se com freqüência a expressão «flechada» para denominar um amor à primeira vista que elimina todo obstáculo; em nenhum caso esta metáfora é tão apropriada como em São Paulo.

Vejamos como esta mudança de coração aparece no texto que lemos. Fala do «bem supremo» (hyperecho) de conhecer a Cristo e se sabe que, neste caso, como em toda a Bíblia, conhecer não indica uma descoberta só intelectual, um ter uma idéia de algo, mas um laço vital íntimo, um entrar em relação com o objeto conhecido. O mesmo vale no caso da expressão «anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da sua Ressurreição, pela participação em seus sofrimentos». «Conhecer pela participação em seus sofrimentos» não significa, evidentemente, ter uma idéia dos mesmos, mas experimentá-los.

Por acaso li esta passagem em um momento especial da minha vida, no qual me encontrava também eu diante de uma escolha. Eu tinha me ocupado de Cristologia, havia escrito e lido muito sobre este tema, mas quando li «pelo conhecimento de Cristo», compreendi imediatamente que aquele simples pronome pessoal que aparece no original, «ele», (auton) continha mais verdades sobre Jesus que todos os livros escritos ou lidos sobre Ele. Compreendi que, para o apóstolo, Cristo não era um conjunto de doutrinas, de heresias, de dogmas: era uma pessoa viva, presente e realíssima que se podia designar com um simples pronome, como se faz quando se fala de alguém que está presente, assinalando-o com o dedo.

O efeito do enamoramento é duplo. Por um lado, põe em obra uma drástica redução do interesse em si, uma concentração sobre a pessoa amada que faz passar a um segundo plano todo o resto do mundo; por outro, nos faz capazes de sofrer qualquer coisa pela pessoa amada, aceitar a perda de tudo. Vemos ambos os efeitos realizados à perfeição no momento no qual o Apóstolo descobre Cristo: por ele, diz, «tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo».

Aceitou a perda de seus privilégios de «judeu entre os judeus», a estima e a amizade de seus mestres e compatriotas, o ódio e a lástima de quem não compreendia como um homem como ele teria podido deixar-se seduzir por uma seita de fanáticos. A 2ª Carta aos Coríntios inclui a enumeração impressionante de tudo o que ele sofreu por Cristo (cf. 2 Cor 11, 24-28).

O Apóstolo encontrou por si mesmo a única palavra que encerra tudo: «conquistado por Jesus Cristo». Poder-se-ia traduzir também «aferrado», «fascinado» ou, com uma expressão de Jeremias, «seduzido» por Cristo. Os enamorados não se cortam; fizeram-no tantos místicos no cúmulo de seu ardor. Não tenho dificuldade, portanto, para imaginar um Paulo que, em um ímpeto de alegria, após sua conversão, grita ele sozinho aos árabes ou, às margens do mar, o que mais tarde escreveria aos filipenses: «Fui conquistado por Cristo! Fui conquistado por Cristo!».

Conhecemos bem as frases lapidárias e cheias de significado do Apóstolo que cada um gostaria de poder repetir na própria vida: «Para mim viver é Cristo» (Flp 1, 21), e «Não sou eu quem vive, mas Cristo quem vive em mim» (Gál 2, 20).

2. «Em Cristo»

Pois bem, sendo fiel ao anunciado no programa destas pregações, eu gostaria de destacar o que, sobre este ponto, o pensamento de Paulo pode significar, primeiro para a teologia de hoje e depois para a vida espiritual dos crentes.

A experiência pessoal levou Paulo a uma visão global da vida cristã que ele denomina «Em Cristo» (en Christo). A fórmula se repete 83 vezes no corpus paulino, sem contar a expressão afim «com Cristo» (syn Christo) e as expressões pronominais equivalentes «nele» ou «naquele que».

É quase impossível traduzir com palavras o rico conteúdo destas frases. A proposição «em» tem um significado algumas vezes local, outras temporal (no momento no qual Cristo morre e ressuscita), outras instrumental (por meio de Cristo). Descreve a atmosfera espiritual na qual o cristão vive e atua. Paulo aplica a Cristo o que, no discurso ao Areópago de Atenas, diz de Deus, citando um autor pagão: «N’Ele vivemos, nos movemos e existimos» (Atos 17, 28). Mais tarde, o evangelista João expressaria a mesma visão com a imagem do «permanecer em Cristo» (João 15, 4-7).

A estas expressões recorrem aqueles que falam de mística paulina. Frases como «Deus reconciliou em si o mundo em Cristo» (2 Cor 5, 19) são totalizadoras, não deixam fora de Cristo nada nem ninguém. Dizer que os crentes estão «chamados a ser santos» (Romanos 1, 7) equivale para o Apóstolo a dizer que estão «chamados por Deus à comunhão com seu Filho Jesus Cristo» (1 Cor 1, 9).

Justamente, também no mundo protestante, hoje se começa a considerar a visão sintetizada, na expressão «em Cristo» ou «no Espírito», como mais central e representativa do pensamento de Paulo que a própria doutrina da justificação mediante a fé.
O ano paulino poderia revelar-se como a ocasião providencial para fechar todo um período de discussões e confrontos ligados mais ao passado que ao presente, e abrir um novo capítulo no uso do pensamento do Apóstolo. Voltar a usar suas cartas, e em primeiro lugar a Carta aos Romanos, para o fim para o qual foram escritas, que não era, certamente, o de proporcionar às gerações futuras uma palestra na qual exercitar sua perspicácia teológica, mas o de edificar a fé da comunidade, formada em sua maioria por pessoas simples e iletradas. «Anseio ver-vos – diz aos romanos –, a fim de comunicar-vos algum dom espiritual que vos fortaleça, ou melhor, para sentir entre vós o mútuo consolo da fé comum: a vossa e a minha.» (Rom 1, 11-12)

3. Muito além da Reforma e da Contra-reforma

É tempo, creio, de ir muito além da Reforma e muito além da Contra-reforma. O que está em jogo, no princípio do terceiro milênio, já não é o mesmo do início do segundo milênio, quando se produziu a separação entre o Oriente e o Ocidente, e nem sequer da metade do milênio, quando se produziu, dentro da cristandade ocidental, a separação entre católicos e protestantes.

Por dar um só exemplo, o problema já não é o de Lutero de como libertar o homem do sentimento de culpa que o oprime, mas de como devolver ao homem o verdadeiro sentido do pecado que perdeu totalmente. Que sentido tem continuar discutindo sobre «como se dá a justificação do ímpio», quando o homem está convencido de que não precisa de nenhuma justificação e declara com orgulho: «Eu mesmo hoje me acuso e só eu posso absolver-me, eu o homem?» [1].
Eu creio que todas as discussões de séculos entre católicos e protestantes, em torno da fé e das obras, acabaram por fazer-nos perder de vista o principal ponto da mensagem paulina, desviando com freqüência a atenção de Cristo às doutrinas sobre Cristo, na prática, de Cristo aos homens. O que o Apóstolo afirma em Romanos 3 não é que estamos justificados pela fé, mas estamos justificados pela fé em Cristo; não é tanto que estamos justificados pela graça, mas que estamos justificados pela graça de Cristo. O acento é posto em Cristo, mais do que na fé ou na graça.

Após ter apresentado nos capítulos precedentes da Carta à humanidade em seu universal estado de pecado e perdição, o Apóstolo tem o incrível valor de proclamar que esta situação agora mudou radicalmente «em virtude da redenção realizada por Cristo», «pela obediência de um só homem» (Rom 3, 24; 5, 19). A afirmação de que esta salvação se recebe por fé, e não pelas obras, é importantíssima, mas vem em segundo lugar, não em primeiro. Cometeu-se o erro de reduzir a um problema de escolas, dentro do cristianismo, o que era para o Apóstolo uma afirmação de alcance mais amplo, cósmico, universal.

Esta mensagem do Apóstolo sobre a centralidade de Cristo é de grande atualidade. Muitos fatores, com efeito, levam a colocar entre parênteses hoje sua pessoa. Cristo não se questiona hoje em nenhum dos três diálogos mais vivazes em curso entre a Igreja e o mundo. Nem no diálogo entre fé e filosofia, porque a filosofia se ocupa de conceitos metafísicos, não de realidades históricas com a pessoa de Jesus de Nazaré; nem no diálogo com a ciência, com a qual se pode unicamente discutir sobre a existência ou não de um Deus criador, de um projeto por trás da evolução; nem, enfim, no diálogo inter-religioso, que se ocupa daquilo que as religiões podem fazer juntas, em nome de Deus, pelo bem da humanidade.

Poucos, inclusive entre os crentes, quando são perguntados sobre em que crêem, responderiam: creio que Cristo morreu por meus pecados e ressuscitou para minha justificação. A maioria responderia: creio na existência de Deus, em uma vida depois da morte. E, contudo, para Paulo, como para todo o Novo Testamento, a fé que salva é só aquela na morte e ressurreição de Cristo: «Se confessas com tua boca que Jesus é Senhor e crês em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo» (Rom 10, 9).
No mês passado, aconteceu aqui no Vaticano um simpósio promovido pela Academia Pontifícia para as Ciências, com o título «Pontos de vista científicos em torno da evolução do universo da vida», do qual participaram os máximos cientistas de todo o mundo. Eu quis entrevistar, para o programa que dirijo aos sábados à tarde na TV sobre o evangelho, um dos participantes, o professor Francis Collins, diretor do grupo de pesquisa que levou em 2000 a decifrar completamente o genoma humano. Sabendo que era crente, eu lhe fiz, entre outras, a pergunta: «Você creu primeiro em Deus ou em Jesus Cristo?».

Ele respondeu: «Até quando tinha mais ou menos 25 anos, eu era ateu, não tinha uma preparação religiosa, era um cientista que reduzia quase tudo a equações e leis da Física. Mas, como médico, comecei a ver as pessoas que deveriam enfrentar o problema da vida e da morte, e isso me fez pensar que meu ateísmo não era uma idéia arraigada. Comecei a ler textos sobre as argumentações racionais da fé, que não conhecia. Primeiro, cheguei à convicção de que o ateísmo era uma alternativa menos aceitável. Pouco a pouco, cheguei à conclusão de que deve existir um Deus que criou tudo isso, mas não sabia como era esde Deus».

É instrutivo ler, em seu livro «A linguagem de Deus», como ele superou este impasse: «Para mim, era difícil estender a ponte para este Deus. Quanto mais aprendia a conhecê-lo, mais sua pureza e santidade me pareciam inacessíveis. Nesta amarga coincidência, chegou a pessoa de Jesus Cristo. Havia passado mais de um ano desde que decidi crer em alguma espécie de Deus, e agora havia chegado a prestação de contas. Em uma linda manhã de outono, enquanto pela primeira vez, passeando pelas montanhas, eu me dirigia ao oeste do Mississipi, a majestade e a beleza da criação venceram minha resistência. Compreendi que a busca havia chegado a seu fim. Na manhã seguinte, ao sair o sol, eu me ajoelhei sobre a erva úmida e me rendi a Jesus Cristo» [2].

Pensa-se na palavra de Cristo: «Ninguém vai ao Pai senão por mim». Só n’Ele Deus se faz acessível e crível. Graças a esta fé reencontrada, o momento da descoberta do genoma humano foi, ao mesmo tempo, diz ele, uma experiência de exaltação científica e de adoração religiosa.

A conversão deste cientista demonstra que o evento de Damasco se renova na história; Cristo é o mesmo ontem e hoje. Não é fácil para um cientista, especialmente para um biólogo, declarar-se crente publicamente hoje, como não o foi para Saulo: corre-se o risco de ser imediatamente «expulso da sinagoga». E, de fato, é o que aconteceu ao professor Collins, que por sua profissão de fé teve de sofrer os dardos de muitos laicistas.

4. Da presença de Deus à presença de Cristo

Resta-me dizer algo sobre outro ponto: o que o exemplo de Paulo tem a dizer para a vida espiritual dos crentes. Um dos temas mais tratados na espiritualidade católica é o do pensamento da presença de Deus [3]. São incontáveis os tratados sobre este tema desde o século XVI até hoje. Em um deles se lê: «O bom cristão deve habituar-se a este santo exercício em todo tempo e em todo lugar. Ao despertar, dirija em seguida o olhar da alma a Deus, fale e converse com Ele como seu amado Pai. Quando caminhe pelas ruas, tenha os olhos do corpo baixos e modestos, elevando os da alma a Deus» [4].

Distingue-se «o pensamento da presença de Deus» do «sentimento de sua presença: o primeiro depende de nós, o segundo é, ao contrário, dom da graça que depende de nós. (Para São Gregório, «o sentimento da presença» de Deus, a aisthesis parousia, é quase sinônimo de experiência mística).

É uma visão rigidamente teocêntrica que, em alguns autores, chega inclusive ao conselho de «deixar de lado a santa humanidade de Cristo». Santa Teresa de Jesus reagirá energicamente contra esta idéia que reaparece periodicamente no cristianismo, desde Orígenes em diante, tanto oriental como ocidental. Mas a espiritualidade da presença de Deus, também depois da Santa, continuará sendo rigidamente teocêntrica, com todos os problemas que derivam dela, postos de relevo pelos mesmos autores que tratam deles [5].

Neste sentido, o pensamento de São Paulo pode nos ajudar a superar a dificuldade que levou ao declive da espiritualidade da presença de Deus. Ele fala sempre de uma presença de Deus «em Cristo». Uma presença irreversível e insuperável. Não há um estágio da vida espiritual no qual se possa prescindir de Cristo, ou ir «além de Cristo». A vida cristã é uma «vida oculta com Cristo em Deus» (Colossenses 3, 3). Este cristocentrismo paulino não atenua o horizonte trinitário da fé, mas o exalta, porque para Paulo todo o movimento parte do Pai e volta ao Pai, por meio de Cristo, no Espírito Santo. A expressão «em Cristo» é intercambiável, em seus escritos, com a expressão «no Espírito».

A necessidade de superar a humanidade de Cristo, para aceder diretamente ao Logos eterno e à divindade, nascia de uma escassa consideração da ressurreição de Cristo. Esta era vista em seu significado apologético, como prova da divindade de Jesus, e não suficientemente em seu significado mistérico, como início de sua vida «segundo o Espírito», graças à qual a humanidade de Cristo aparece já em sua condição espiritual e, portanto, onipresente e atual.

O que se deriva disso no âmbito prático? Que podemos fazer tudo «em Cristo» e «com Cristo», seja que comamos, durmamos, ou que façamos qualquer outra coisa, diz o Apóstolo (1 Coríntios 10, 31). O Ressuscitado não está presente só porque pensamos n’Ele, mas está realmente junto de nós; não somos nós que devemos, com o pensamento e a imaginação, transladar-nos à sua vida terrena e representar os episódios de sua vida (como se trata de fazer com a meditação dos «mistérios da vida de Cristo»): é Ele, o Ressuscitado, o que vem a nós. Não somos nós que, com a imaginação, temos de fazer-nos contemporâneos de Cristo: é Cristo o que se faz realmente nosso contemporâneo. «Eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo» (a propósito, por que não fazer imediatamente um ato de fé? Ele está aqui, nesta capela, mais presente que qualquer um de nós; busca o olhar de nosso coração e se alegra quando o encontra).

Existe um texto reflete maravilhosamente esta visão da vida cristã, na oração atribuída a São Patrício: «Cristo comigo, Cristo na minha frente, Cristo atrás de mim, Cristo em mim! Cristo debaixo de mim, Cristo sobre mim, Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda»! [6].

Que novo e mais alto significado adquirem as palavras de São Luis María Grinon de Montfort, se aplicarmos ao «Espírito de Cristo» o que ele diz do «espírito de Maria»:

«Devemos abandonar-nos ao Espírito de Cristo para ser movidos e guiados segundo seu querer. Devemos colocar-nos e permanecer entre suas mãos como um instrumento nas mãos de um oleiro, como um alaúde entre as mãos de um hábil instrumentista. Devemos perder-nos e abandonar-nos nele como a pedra que se lança ao mar. É possível fazer tudo isso simplesmente e em um instante, com um só olhar interior ou um leve movimento da vontade, ou inclusive com alguma breve palavra.» [7]

5. Esquecimento do passado

Concluamos voltando ao texto de Filipenses 3. São Paulo acaba suas «confissões» com uma declaração:
«Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo.» (Flp 3, 13-14)

«Prescindindo do passado.» Que passado? O de fariseu, do qual falou antes? Não, o passado de apóstolo na Igreja! Agora, o lucro a considerar perda é outro: é justo o ter já de uma vez considerado tudo perda por Cristo. Era natural pensar: «Que valor tem Paulo: abandonar uma carreira de rabino tão bem iniciada por uma obscura seita de galileus! E que cartas escreveu! Quantas viagens empreendeu, quantas igrejas fundou!».

O Apóstolo intui o perigo mortal de introduzir entre si e Cristo uma «justiça própria», derivada das obras – esta vez, as obras realizadas por causa de Cristo –, e reage energicamente. «Não considero – diz – ter chegado à perfeição.» São Francisco de Assis, no final de sua vida, cortava pela raiz toda tentação de auto-complacência, dizendo: «Comecemos, irmãos, a servir ao Senhor, porque até agora fizemos pouco ou nada» [8].

Esta é a conversão mais necessária para quem já seguiu Cristo e viveu a seu serviço na Igreja. Uma conversão sumamente especial, que não consiste em abandonar o mal, mas, em certo sentido, em abandonar o bem! Ou seja, em tomar distância de tudo o que se fez, repetindo para si mesmos, segundo a sugestão de Cristo: «Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer» (Lucas 17, 10).

Este esvaziar as mãos e os bolsos de toda pretensão, em espírito de pobreza e humildade, é o melhor modo para preparar-nos para o Natal. Recorda-nos um simpático conto natalino que me compraz citar de novo. Ele narra que, entre os pastores que correram na noite de Natal para adorar o Menino, havia um tão pobrezinho que não tinha nada para oferecer e se envergonhava muito. Ao chegarem à gruta, todos competiam ao oferecer seus dons. Maria não sabia como fazer para receber todos, tendo o Menino nos braços. Então, vendo ao pastorinho com as mãos livres, pegou Jesus e o confiou a ele. Ter as mãos vazias foi sua fortuna e, em outro nível, será também a nossa.



[1] J.-P. Sartre, Il diavolo e il buon dio, X,4 (Parigi, Gallimard 1951, p. 267.).
[2] F. Collins, The Language of God. A Scientist Presents Evidence for Belief, pp. 219-255.
[3] Cf. M. Dupuis, Présence de Dieu, in D Spir. 12, coll. 2107-2136.
[4] F. Arias (+1605), cit. da Dupuis, col. 2111.
[5] Dupuis, cit., col 2121: «Se l'onnipresenza di Dio non si distingue dalla sua essenza, l'esercizio della presenza di Dio non aggiunge al tradizionale tema del ricordo di Dio, se non un sforzo imaginativo».
[6] «Christ with me, Christ before me, Christ behind me, Christ below me, Christ above me, Christ at my right, Christ at my left.»
[7] Cf. S. L. Grignon de Montfort, Trattato della vera devozione a Maria, nr. 257.259 (in Oeuvres complètes, Parigi 1966, pp. 660.661).
[8] Celano,Vita prima, 103 (Fonti Francescane, n. 500).

Pe. Raniero Cantalamessa

Fonte: Zenit Org.


enviada por Ernesto






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